ESCRAVO REJEITADO
Manoel Fonseca
Os mutilados, os velhos e os doentes,
Depois de sete anos de trabalho,
Do horror da escravidão sobreviventes,
Descartados qual carta de baralho,
De sua terra de origem desgarrados,
Atirados na rua, à própria sorte,
Vidas partidas, incapacitados,
São africanos livres para a morte.
Libertado sob esta condição,
Sem teto, proteção, ao desamparo,
O povo negro amarga a humilhação,
Abandonado feito um cão sem faro,
Pois dos porões vem carne mais barata,
A ser moída em engenhos e senzalas,
No tronco, nos grilhões e na chibata,
Explosão de dor que no peito estala.
Mais antigos na dor e sofrimento,
Os que vão morrer desesperados,
Pois do Clero, do Senhor e do Estado
Só recebem crueldade e banimento,
Clamam que o fruto amargo e odiento
Precisa ser cuspido e não tragado,
Na revolta, na luta e no traçado
De nova vida de paz e sem tormento.
Ilustração: Breno Loeser
Do livro: Escravidão e Lutas de Libertação-2020
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